EMPRÉSTIMO CONSIGNADO NÃO SOLICITADO:

O PASSO A PASSO PARA CANCELAR E PEDIR DANOS MORAIS**


Resumo

O empréstimo consignado, amplamente utilizado por aposentados, pensionistas do INSS e servidores públicos, tem se tornado um dos principais focos de fraudes bancárias no Brasil. A liberação de crédito sem solicitação expressa do consumidor, seguida de descontos automáticos em folha ou benefício previdenciário, representa grave violação aos direitos do consumidor e à dignidade da pessoa humana. Este artigo, em formato de estudo técnico-educativo, analisa o fenômeno do empréstimo consignado não solicitado, suas causas, consequências jurídicas, fundamentos legais, responsabilidade civil das instituições financeiras, bem como apresenta um passo a passo prático para cancelamento do contrato e pedido de indenização por danos morais. Ao final, são indicadas medidas preventivas e referências normativas aplicáveis ao tema.

Palavras-chave: Empréstimo consignado; Fraude bancária; Código de Defesa do Consumidor; Dano moral; INSS; Responsabilidade civil.


1. Introdução

O crédito consignado consolidou-se como uma das modalidades de empréstimo mais difundidas no Brasil, especialmente entre aposentados, pensionistas e servidores públicos. Sua principal característica consiste no desconto automático das parcelas diretamente do benefício previdenciário ou da folha de pagamento, reduzindo o risco de inadimplência e, em tese, oferecendo taxas de juros mais baixas.

Todavia, paralelamente ao crescimento desse mercado, verificou-se um aumento expressivo de fraudes e irregularidades, notadamente a contratação de empréstimos consignados sem a solicitação ou autorização do consumidor. Em tais situações, valores são creditados indevidamente em contas bancárias e, em seguida, iniciam-se descontos mensais no benefício, sem que o titular tenha firmado qualquer contrato.

O problema assume especial gravidade quando afeta idosos e beneficiários do INSS, que dependem de renda alimentar para subsistência. Além do prejuízo financeiro direto, há impactos psicológicos, sociais e jurídicos, caracterizando ofensa à dignidade da pessoa humana.

Este estudo tem como objetivo apresentar uma análise jurídica e prática do empréstimo consignado não solicitado, esclarecer os direitos do consumidor, demonstrar a responsabilidade das instituições financeiras e fornecer um roteiro objetivo para o cancelamento do contrato e o pedido de indenização por danos morais.


2. Conceito de Empréstimo Consignado Não Solicitado

O empréstimo consignado não solicitado ocorre quando uma instituição financeira, diretamente ou por intermédio de correspondentes bancários, libera crédito sem a manifestação de vontade válida do consumidor.

Essa situação pode decorrer de:

  • Falsificação de assinatura;
  • Uso indevido de dados pessoais;
  • Gravação fraudulenta de chamadas telefônicas;
  • Portabilidade forjada de contrato;
  • Depósito de valores sem autorização expressa;
  • Falhas de segurança em sistemas bancários;
  • Atuação irregular de correspondentes bancários.

Em todos esses casos, inexiste consentimento válido, requisito essencial para a formação do contrato, tornando-o juridicamente nulo.


3. Modalidades Mais Comuns de Fraude

A prática revela padrões recorrentes:

a) Depósito surpresa: o consumidor recebe um valor que não solicitou e, dias depois, passam a ocorrer descontos automáticos.
b) Contratação telefônica fraudulenta: gravações manipuladas simulam consentimento.
c) Portabilidade indevida: migração de contrato inexistente para outra instituição.
d) Uso de dados vazados: CPFs, RGs e dados bancários utilizados para firmar contratos falsos.
e) Correspondentes bancários irregulares: agentes terceirizados que agem sem controle adequado.


4. Identificação do Empréstimo Não Solicitado

Os principais indícios são:

  • Descontos mensais desconhecidos no benefício ou salário;
  • Redução repentina do valor líquido recebido;
  • Depósitos inesperados;
  • Nome de instituição financeira desconhecida no extrato;
  • Contrato que o consumidor não reconhece.

No caso de aposentados e pensionistas, é possível consultar o extrato de empréstimos no sistema “Meu INSS”, onde constam todos os contratos consignados ativos.


5. Fundamentos Jurídicos Aplicáveis

5.1 Código de Defesa do Consumidor (CDC)

O CDC assegura proteção integral ao consumidor:

Art. 39, III – É vedado ao fornecedor enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto ou fornecer qualquer serviço.

Art. 42 – O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais.

Art. 14 – O fornecedor responde, independentemente de culpa, pela reparação dos danos causados ao consumidor por defeitos na prestação do serviço.


5.2 Constituição Federal

Art. 5º, X – São invioláveis a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material, moral ou à imagem.


5.3 Súmula 479 do STJ

As instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações bancárias.


6. Responsabilidade Civil do Banco

Mesmo quando a fraude é cometida por terceiros ou correspondentes bancários, a responsabilidade do banco é objetiva. Isso significa que:

  • Não é necessário provar culpa;
  • Basta demonstrar o dano e o nexo com o serviço bancário;
  • O banco não pode transferir o prejuízo ao consumidor;
  • Cabe à instituição provar a validade do contrato.

7. Passo a Passo Para Cancelar o Empréstimo

7.1 Reunião de Provas

  • Extratos bancários;
  • Comprovantes de desconto;
  • Prints do Meu INSS;
  • Registro de depósito indevido;
  • Protocolos de atendimento.

7.2 Reclamação no Banco

  • Registrar reclamação formal no SAC;
  • Solicitar cópia do contrato;
  • Anotar número de protocolo;
  • Exigir cancelamento imediato.

7.3 Boletim de Ocorrência

  • Registrar ocorrência relatando fraude;
  • Pode ser feito online;
  • Guardar cópia.

7.4 Reclamação no Banco Central

  • Registrar reclamação na plataforma oficial;
  • Anexar documentos;
  • Informar instituição envolvida.

7.5 Reclamação no Procon

  • Protocolar queixa;
  • Anexar provas;
  • Solicitar providências.

7.6 Bloqueio de Novos Empréstimos

No sistema “Meu INSS”, é possível solicitar bloqueio para novos consignados, evitando novos golpes.


8. Direito à Devolução dos Valores

O consumidor tem direito a:

  • Restituição integral;
  • Correção monetária;
  • Juros legais;
  • Em muitos casos, restituição em dobro.

9. Danos Morais

Os tribunais reconhecem que:

  • Descontos indevidos em benefício previdenciário;
  • Redução de renda alimentar;
  • Angústia e sofrimento;
  • Violação da dignidade;

configuram dano moral indenizável.

Os valores variam conforme o caso concreto, geralmente entre R$ 3.000,00 e R$ 15.000,00, podendo ser superiores em situações mais graves.


10. Jurisprudência Relevante

O Superior Tribunal de Justiça consolidou entendimento no sentido de que:

  • O banco deve cancelar o contrato fraudulento;
  • Restituir valores;
  • Indenizar por danos morais;
  • Arcar com custas e honorários.

11. Documentos Necessários Para Ação Judicial

  • RG e CPF;
  • Comprovante de residência;
  • Extratos bancários;
  • Carta de concessão do INSS;
  • Prints do Meu INSS;
  • Protocolos de atendimento;
  • Boletim de ocorrência.

12. Juizado Especial Cível

Até 20 salários mínimos, o consumidor pode ingressar sem advogado.
Acima desse valor, recomenda-se advogado especializado em direito do consumidor.


13. Medidas Preventivas

  • Nunca informar dados por telefone;
  • Bloquear empréstimos no Meu INSS;
  • Desconfiar de depósitos inesperados;
  • Não assinar documentos sem leitura;
  • Monitorar extratos regularmente.

14. Conclusão

O empréstimo consignado não solicitado configura grave violação aos direitos do consumidor e à boa-fé objetiva. A ausência de consentimento invalida o contrato e impõe à instituição financeira o dever de cancelar o vínculo, restituir os valores descontados e indenizar os danos morais sofridos.

O consumidor não pode ser responsabilizado por falhas de segurança bancária ou fraudes praticadas por terceiros. A legislação brasileira, aliada à jurisprudência consolidada, oferece instrumentos eficazes para a proteção do cidadão e a responsabilização dos bancos.

É essencial que o consumidor documente todas as irregularidades, busque os canais administrativos e, se necessário, recorra ao Judiciário para a efetiva reparação de seus direitos.


15. Referências

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
BRASIL. Lei nº 8.078/1990. Código de Defesa do Consumidor.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula 479.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1.197.929.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. REsp 1.634.851.
INSS. Resolução nº 1.320/2022.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Reclamações contra instituições financeiras.

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